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I Met God she’s Green

Um blog de Joana Seixas e Brandão, sobre tudo o que podemos fazer para tornar as nossas vidas mais sustentáveis e mais felizes!

I Met God she’s Green

Ricardo Ramos - Pessoas que nos inspiram

13.04.19 | Madalena

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A paixão do Ricardo pelo mar transformou-o em Xicogaivota. Este artista português recolhe o plástico trazido pelo mar dando-lhe um novo fim.  A sua criatividade não tem limites e consegue transformar lixo em autênticas obras de arte.

Este homem inspirador é o primeiro convidado destas nossas conversas.

Não podíamos começar melhor!

Se eu assim de repente te perguntasse: Quem és tu? O que é que te vinha logo à cabeça para te apresentares?

Sou o Ricardo…..e há dois anos que sou também o xicogaivota... e o xicogaivota faz-me ser uma pessoa muito melhor em vários aspectos.

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Qual foi o teu percurso até aparecer o Xicogaivota?

Eu fiz muitas coisas durante estes últimos anos, variadas...mas nunca artístico a este ponto. Aprendi a trabalhar vários materiais, mas nunca me apaixonei por nenhum. Estive sempre muito perto das artes e muito perto do mar…

Há 15 anos que faço do mar e das arribas o meu dia a dia, ao percebe ou à pesca. É impossível descrever a sensação de serem quase 7h da manhã e estar em cima de uma arriba a ver o mar num dia de inverno...a chover e com o fato molhado do dia anterior… olhares a cruzarem-se entre os mariscadores a ver quem vai….não te está a apetecer nada ir, mas se alguém for, tu vais. À primeira chapada acordas, os teus sentidos ficam todos a 100%, não há descuidos. Este estado de alerta é viciante.

E ainda não sei bem como mas o xicogaivota apareceu e deixei os percebes, a pesca, e só ficaram as arribas.

Como surgiu o Xicogaivota? Aconteceu naturalmente ou pensaste antes sobre a questão do plástico nas praias e pensaste num fim para lhe dar?

Eu via diariamente a forma como nós todos tratamos o mar, e não só em relação ao lixo. Temos as pescas, os transportes, a acidificação, alterações climáticas, lixos industriais, etc… e isso preocupava-me. Mas nunca tinha passado das palavras à acção.

Mas num dia de inverno antes do natal, agarrei nos meus filhos e fomos para a praia apanhar materiais para fazermos umas esculturas para oferecer como presentes à família.

Acontece que fiquei viciado nas peças que ia apanhando...e continuei a apanhar.

Passei muitas horas a andar em praias e a ver não só um padrão nos tipos de lixos, como a pensar o que fazer com o material que estava a apanhar.

A ideia principal foi retirar e garantir que estas peças não voltassem ao mar.

Indiferentemente do destino que lhes desse depois de recolhidas, seja no contentor certo, no errado ou no chão, a probabilidade destas peças encontrarem o caminho de volta para o mar era alta. Algumas podem durar mais de 400 anos, têm muito tempo...

O problema do plástico é que sempre que se parte, duplicaste o problema. Então decidi não manipular ou partir os fragmentos, também decidi não usar colas, tintas nem soldar o plástico porque ia aumentar a minha pegada. E estas peças têm uma cor única em que o tempo, a areia e a força do mar fazem umas formas e arestas incríveis…

Decidi usar também estruturalmente só peças que recolho.

E continuo a percorrer as arribas para ir apanhar estes plásticos ao longo da nossa costa.

É um projecto muito meu, muito pessoal. Daí não ter posto o meu nome, e ter criado o xicogaivota.

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Como conseguiste passar da ideia à concretização da mesma? Fazes tudo sozinho? Onde guardas o plástico?

Foi acreditar e deixar-me levar, sem pensar muito sobre o destino final, mas a valorizar e contemplar os momentos em que passo nestes sítios, a tentar retirar o máximo que consigo.

70% do lixo marinho afunda...o que ele cospe são migalhas...é assustador o que não vemos...o que o mar esconde, o que a areia tapa...assustador.

Para poder começar uma peça, preciso de dezenas de idas a praias...e mesmo assim estão sempre a faltar peças. Todas as peças que tenho foram apanhadas por mim, e tudo o que recolho, guardo.

Todas as peças que recolho passam a ser da minha responsabilidade, por isso sou muito selecto no que recolho e trago.

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Quais as tuas rotinas ou o que fazes para tentar encontrar o equilíbrio num mundo em que o ritmo é cada vez mais acelerado e nos é exigido cada vez mais tarefas?

No momento em que fui pai, as minhas prioridades mudaram e não abdico do tempo que tenho com os meus filhos. Eu vivo numa aldeia, e faço quase tudo a pé, quase que só agarro no carro para ir apanhar material. Saio de manhã com os meus filhos e vamos a pé por um caminho incrível até à escola, depois sigo com os restantes até a outra escola. Mais uns metros bebo café e falo com os vizinhos, e sigo para casa. Depois posso agarrar no carro e dar uma volta de binóculos a controlar as arribas, a decidir onde ir... quando e o que tenho para apanhar... Posso fazer 100 km nesta volta e posso não chegar a ir apanhar material. Posso ficar a arrumar material, ou posso ir trabalhar logo numa peça, depende muito, e de muita coisa… até da lua.

Depois por volta das 16h30 vou apanhar os meus filhos e estou com eles. Posso trabalhar mais ou menos até ao jantar, e depois de os deitar volto ao trabalho e às vezes fico até bem tarde.

Eu sigo o meu ritmo ao meu ritmo, tirando esse, só sigo o ritmo do mar.

Fujo das cidades, de centros comerciais, de lojas movimentadas, do transito….fujo da infelicidade, tanto tempo gasto em coisas tão desnecessárias.

A palavra equilíbrio é a chave para a felicidade, ao mesmo tempo é-nos tão difícil deixar a balança funcionar...queremos sempre mais! Deixando de valorizar o que damos por garantido, esquecendo que grande parte da população mundial não vive sequer com essas coisas que damos por certas.

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O que fazes, tentas ou gostavas de fazer para contribuir para um mundo mais sustentável?

Quando comecei a aperceber-me que mesmo não sendo esse o objectivo inicial, conseguia influenciar outras pessoas….desde o momento em que começaram a nascer novas «gaivotinhas»! Que depois de estarem comigo foram para casa dizer aos pais o que tinham de mudar….passou a ser esse o meu objectivo.

Eu preciso que vejam o que eu vejo, não é só no Índico e Pacífico, é na nossa costa, o mar une-nos a todos. Quero partilhar, falar, discutir e ajudar a arranjar soluções para estes problemas.

Quero continuar a ir a países como Moçambique, quero ajudar, partilhar e aprender.

Três coisas positivas sobre o mundo que te alegrem e dêem esperança.

O sorriso de uma criança.

Aqueles que mesmo não tendo muito, têm o suficiente para partilhar.

Ter percebido que na realidade depende apenas de nós, se nós mudarmos honesta e individualmente, a magia acontece e acabas por mudar muitos outros no percurso.

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Para conhecerem mais sobre o Ricardo e o seu trabalho incrível espreitem o site do Xicogaivota. Vale mesmo a pena, é muito inspirador. Obrigada, Ricardo!

 

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